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Porquê me converti ao Catolicismo - G. K. Chesterton


Gilbert Keith Chesterton - [ 29/05/1874 — 14/06/1936]


Porquê me converti ao Catolicismo - Chesterton

Embora eu seja católico há apenas alguns anos, sei que o problema "por quê sou católico" é muito diferente do problema "por quê me converti ao catolicismo". Tantas coisas motivaram minha conversão e tantas outras continuam surgindo depois... Todas elas se colocam em evidência apenas quando a primeira nos dá o empurrão que conduz à conversão mesma.

Todas são também tão numerosas e tão diferentes umas das outras, que, no final das contas, o motivo originário e primordial pode chegar a parecer quase insignificante e secundário. A "confirmação" da fé, vale dizer, seu fortalecimento e afirmação, pode vir, tanto no sentido real como no sentido ritual, depois da conversão. O convertido não costuma recordar mais tarde de que modo aquelas razões se sucediam umas após as outras. Pois breve, muito breve, este sem número de motivos chega a se fundir em uma só e única razão.

Existe entre os homens uma curiosa espécie de agnósticos, ávidos esquadrinhadores da arte, que averiguam com sumo cuidado tudo o que em uma catedral é antigo e tudo o que nela é novo. Os católicos, ao contrário, outorgam mais importância ao fato de se a catedral foi construída para voltar a servir como o que é, quer dizer, como catedral.

Uma catedral! A ela se parece todo o edifício de minha fé; desta minha fé que é grande demais para uma descrição detalhada; e da que, com grande esforço, posso determinar as idades de suas diversas pedras.Apesar de tudo, estou seguro de que a primeira coisa que me atraiu ao catolicismo, era algo que, no fundo, deveria ter me afastado dele. Estou convencido de que vários católicos devem seus primeiros passos à Roma à amabilidade do defunto senhor Kensit.

O senhor Kensit, um pequeno livreiro da City, conhecido como protestante fanático, organizou em 1898 um bando que, sistematicamente, assaltava as igrejas ritualistas e perturbava seriamente os ofícios. O senhor Kensit morreu em 1902 por causa das feridas recebidas em um desses assaltos. Logo a opinião pública se voltou contra ele, classificando como "Kensitite Press" os piores panfletos anti-religiosos publicados na Inglaterra contra Roma, panfletos carentes de todo são juízo e de toda boa vontade.

Lembro especialmente agora estes dois casos: alguns autores sérios lançavam graves acusações contra o catolicismo, e, curiosamente, o que eles condenavam me pareceu algo precioso e desejável.

No primeiro caso —acredito que se tratava de Horton e Hocking— mencionavam com estremecido pavor, uma terrível blasfêmia sobre a Santíssima Virgem de um místico católico que escrevia: "Todas as criaturas devem tudo a Deus; ma a Ela, até mesmo Deus deve algum agradecimento". Isto me sobressaltou como um som de trombeta e me disse quase em voz alta: "Que maravilhosamente dito!" Parecia com se o inimaginável fato da Encarnação pudesse com dificuldade encontrar expressão melhor e mais clara que a sugerida por aquele místico, sempre que soubesse entendê-la.

No segundo caso, alguém do jornal "Daily News" (então eu mesmo ainda era alguém do "Daily News"), como exemplo típico do "formulismo morto" dos ofícios católicos, citou o seguinte: um bispo francês havia se dirigido a alguns soldados e operários cujo cansaço físico lhes tornava dura assistência na Missa, dizendo-lhes que Deus se contentaria apenas com sua presença, e que lhes perdoaria sem dúvida seu cansaço e sua distração. Então eu disse outra vez a mim mesmo: "Que sensata é essa gente! Se alguém corresse dez léguas por mim, eu estaria muito agradecido, também, que dormisse em seguida em minha presença".
Junto com estes dos exemplos, poderia citar ainda muitos outros procedentes daquela primeira época em que os incertos indícios de minha fé católica se nutriram quase com exclusividade publicações anti-católicas.

Tenho uma clara lembrança do que veio em seguida a estes indícios. É algo do qual me dou tanto mais conta quanto mais desejaria que não tivesse ocorrido. Comecei a marchar para o catolicismo muito antes de conhecer àquelas duas pessoas excelentíssimas a quem, a este respeito, devo e agradeço tanto: ao reverendo Padre John O'Connor de Bradford e ao senhor Hilaire Belloc; mas o fiz sob a influência de meu acostumado liberalismo político; o fiz até na toca do "Daily News".

Este primeiro empurrão, depois de dever-se a Deus, deve-se à história e à atitude do povo irlandês, apesar de que não haja em mim uma só gota de sangue irlandês.

Estive apenas duas vezes na Irlanda e não tenho nem interesses ali nem sei grande coisa do país. Mas isso não me impediu de reconhecer que a união existente entre os diferentes partidos da Irlanda deve-se no fundo a uma realidade religiosa, e que é por esta realidade que todo meu interesse se concentrava nesse aspecto da política liberal.

Fui descobrindo cada vez com maior nitidez, conhecendo pela história e por minhas próprias experiências, como, durante longo tempo se perseguiu por motivos inexplicáveis a um povo cristão, e continua odiando-lhe. Reconheci então que não podia ser de outra maneira, porque esses cristãos eram profundos e incômodos como aqueles que Nero jogou aos leões.

Creio que estas minhas revelações pessoais evidenciam com claridade a razão de meu catolicismo, razão que logo foi se fortificando. Poderia acrescentar agora como continuei reconhecendo depois, que a todos os grandes impérios, uma vez que se afastavam de Roma, passava-lhes exatamente o mesmo que a todos aqueles seres que desprezavam as leis ou a natureza: tinham um leve êxito momentâneo, mas logo experimentavam a sensação de estar enlaçados por um nó, em uma situação da qual eles mesmos não podiam se libertar. Na Prússia há tão pouca perspectiva para o prussianismo, como em Manchester para o individualismo manchesteriano.

Todo mundo sabe que a um velho povoado agrário, arraigado na fé e nas tradições de seus antepassados, espera-lhe um futuro maior ou pelo menos mais simples e mais direto ou pelo menos mais simples e mais direto que aos povos que não têm por base a tradição e a fé. Se este conceito se aplicasse a uma autobiografia, seria muito mais fácil escrevê-la do que se fosse esquadrinhar suas diversas evoluções, mas o sistema seria egoísta. Eu prefiro escolher outro método para explicar breve, mas completamente o conteúdo essencial de minha convicção: não é por falta de material que atuo assim, mas pela dificuldade e escolher o mais apropriado entre todo esse material numeroso. Entretanto tratarei de insinuar um ou dois pontos que me causaram uma especial impressão.

Há no mundo milhares de modos de misticismo capazes de enlouquecer o homem. Mas há uma só maneira entre todas de colocar o homem em um estado normal. É certo que a humanidade jamais pôde viver um longo tempo sem misticismo. Até os primeiros sons agudos da voz gelada de Voltaire encontraram eco em Cagliostro.

Agora a superstição e a credulidade voltaram a expandir-se com tanta vertiginosa rapidez, que dentro de pouco o católico e o agnóstico se encontrarão lado a lado. Os católicos serão os únicos que, com razão, poderão chamar-se racionalistas. O próprio culto idolátrico pelo mistério começou com a decadência da Roma pagã apesar dos "intermezzos" de um Lucrécio ou de um Lucano.

Não é natural ser materialista e tampouco sê-lo dá uma impressão de naturalidade. Tampouco é natural contentar-se unicamente com a natureza. O homem, pelo contrário, é místico. Nascido como místico, morre também como místico, principalmente se em vida foi um agnóstico. Enquanto que todas as sociedades humanas consideram a inclinação ao misticismo como algo extraordinário, tenho eu que objetar, entretanto, que uma só sociedade entre elas, o catolicismo, leva em conta as coisas cotidianas. Todas as outras as deixam de lado e as menosprezam.

Um célebre autor publicou mais uma vez uma novela sobre a contraposição que existe entre o convento e a família (The Cloister and the hearth). Naquele tempo, há 50 anos, era realmente possível na Inglaterra imaginar uma contradição entre essas duas coisas. Hoje em dia, a assim chamada contradição, chega a ser quase um estreito parentesco. Aqueles que em outro tempo exigiam a gritos a anulação dos conventos, destroem hoje sem dissimulação a família. Este é um dos tantos fatos que testemunham a seguinte verdade: que na religião católica, os votos e as profissões mais altas e "menos razoáveis" —por assim dizer— são, entretanto, os que protegem as melhores coisas da vida diária.

Muitos sinais místicos sacudiram o mundo. Mas uma só revolução mística o conservou: o santo está ao lado do superior, é o melhor amigo do bom. Toda outra aparente revelação se desvia por fim a uma ou outra filosofia indigna da humanidade; a simplificações destrutoras; ao pessimismo, ao otimismo, ao fatalismo, à nada e outra vez ao nada; ao "nonsense", à insensatez.

É certo que todas as religiões contêm algo bom. Mas o bom, a quinta essência do bom, a humildade, o amor e o fervoroso agradecimento "realmente existente" para com Deus, não se encontram entre elas. Por mais que as penetremos, por mais respeito que lhes demonstremos, com maior claridade ainda reconhecemos também isto: nos mais profundo delas há algo diferente do puramente bom; há às vezes dúvidas metafísicas sobre a matéria, às vezes havia nelas a voz forte da natureza; outras, e isto no melhor dos casos, existe um medo da Lei e do Senhor.

Se exageramos tudo isto, nasce nas religiões uma deformação que chega até o diabolismo. Só podem ser suportadas enquanto se mantiver razoáveis e medidas.

Enquanto estiverem tranqüilas, podem chegar a ser estimadas, como aconteceu com o protestantismo vitoriano. Pelo contrário, a mais alta exaltação pela Santíssima Virgem ou a mais estranha imitação de São Francisco de Assis, seguiriam sendo, em sua quinta-essência, uma coisa sadia e sólida. Ninguém negará por isso seu humanismo, nem desprezará a seu próximo. O que é bom, jamais poderá chegar a ser Bom DEMAIS. Esta é uma das características do catolicismo que me parece singular e ao mesmo tempo universal. Esta outra a segue:

Somente a Igreja Católica pode salvar o homem da destrutiva e humilhante escravidão de ser filho de seu tempo. Outro dia, Bernard Shaw expressou o nostálgico desejo de que todos os homens vivessem trezentos anos em civilizações mais felizes. Tal frase nos demonstra como os santarrões só desejavam —como eles mesmos dizem- reformas práticas e objetivas.

Agora bem: isto se diz com facilidade; mas estou absolutamente convencido do seguinte: se Bernard Shaw tivesse vivido durante os últimos trezentos anos, teria se convertido há muito tempo ao catolicismo. Teria compreendido que o mundo gira sempre com a mesma órbita e que pouco se pode confiar em seu assim chamado progresso. Teria visto também como a Igreja foi sacrificada por uma superstição bíblica, e a Bíblia por uma superstição darwinista. E um dos primeiros a combater estes feitos tivesse sido ele. Seja como for, Bernard Shaw desejava para cada um uma experiência de trezentos anos. E os católicos, muito ao contrário de todos os outros homens, têm uma experiência de dezenove séculos. Uma pessoa que se converte ao catolicismo, chega, pois, a ter de repente dois mil anos.

Isto significa, se o presenciamos ainda mais, que uma pessoa, ao se converter, cresce e se eleva ao pleno humanismo. Julga as coisas do modo como elas comovem a humanidade, e a todos os países e em todos os tempos; e não somente segundo as últimas notícias dos diários. Se um homem moderno diz que sua religião é o espiritualismo ou o socialismo, esse homem vive integramente no mundo mais moderno possível, quer dizer, no mundo dos partidos.

O socialismo é a reação contra o capitalismo, contra a insana acumulação de riquezas na própria nação. Sua política seria de todo diversa se fosse vivida em Esparta ou no Tibet. O espiritualismo não atrairia tampouco a atenção se não estivesse em contradição deslumbrante com o material estendido em todas as partes. Tampouco teria tanto poder se os valores sobrenaturais fossem mais reconhecidos.

Jamais a superstição tem revolucionado tanto o mundo como agora. Só depois que toda uma geração declarou dogmaticamente e de uma vez por todas, a IMPOSSIBILIDADE de que haja espíritos, a mesma geração deixou-se assustar por um pobre, pequeno espírito. Estas superstições são invenções de seu tempo —poderia se dizer em sua desculpa—. Já faz muito, entretanto, que a Igreja Católica tenha aprovado não ser ela uma invenção de seu tempo: é a obra de seu Criador, e continua sendo capaz de viver o mesmo em sua velhice como em sua primeira juventude: e seus inimigos, no mais profundo de suas almas, perderam já a esperança de vê-la morrer algum dia.

G. K. Chesterton

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Um médico de aldeia - Franz Kafka

Franz Kakfa (1883-1924)

Sentia-me extremamente perplexo. Tinha de deslocar-me urgentemente a uma aldeia a dez milhas de distância, onde me esperava um doente em estado grave. Uma densa tempestade de neve cobria todo o espaço livre que me separava dele. Possuía um cabriolé, um pequeno cabriolé de rodas altas, inteiramente adequado para as nossas estradas de província. Agasalhado de peles, com a mala dos instrumentos na mão, estava no pátio, pronto para a viagem. O que não tinha era cavalo, cavalo nenhum. O meu tinha morrido durante a noite, consumido pelas fadigas deste gélido inverno. A minha criada corria agora à aldeia para tentar arranjar um cavalo emprestado, mas eu sabia que era em vão e ali permanecia abandonado, com a neve a formar sobre mim uma camada progressivamente mais espessa, cada vez mais incapaz de mover-me.

A rapariga apareceu à entrada do portão, sozinha, e abanou a lanterna: é claro, quem estava disposto a emprestar um cavalo a uma hora destas para semelhante viagem? Percorri novamente o pátio para um lado e para outro. Não via solução. Na minha confusa aflição, dei um pontapé na porta dilapida do curral dos porcos, há longos anos deserto. A porta escancarou-se e ficou a abanar nos gonzos. Desprenderam-se do interior um vapor e um cheiro característicos da presença de cavalos. Lá dentro, uma débil lanterna de estábulo balouçava suspensa de uma corda. Naquele espaço exíguo, estava acocorado um homem de cara franca e olhos azuis. «Quer que eu aparelhe?», perguntou, arrastando-se a quatro.Sem saber o que dizer, limitei-me a debruçar-me lá para dentro, a fim de ver que mais havia no curral. A criada estava ao meu lado. «Nunca se sabe o que se pode descobrir na própria casa», comentou ela, e ambos nos rimos. «E, irmão! E, irmã!», chamou o moço. Dois cavalos, uns animais enormes de flancos poderosos, um atrás do outro, arrastando as patas junto ao corpo, com as esbeltas cabeças baixas como as dos camelos, comprimiram-se, à forca exclusiva das garupas, através do vão da porta, que enchiam completamente. Imediatamente, porém, se puseram de pé nas longas patas, com os corpos a deitarem um fumo espesso. «Ajuda-o», disse eu à rapariga, que de modo prestativo correu a auxiliar o moço a aparelhar os cavalos. Mal chegou ao pé dele, porém, o moço atraiu-a violentamente a si e colou a cara à dela. A rapariga soltou um grito e recuou precipitadamente para junto de mim. Impressas a vermelho, viam-lhe na face as marcas de duas fileiras de dentes. «Seu bruto!», exclamei. «Quer que o mande chicotear?». 

No mesmo instante, todavia, refleti que o homem era um estranho, vindo sabe-se lá donde, que estava a ajudar-me de livre vontade, quando todos os outros me tinham deixado entregue à minha sorte. Como se me adivinhasse os pensamentos, não se ofendeu ante a minha ameaça, continuando a ocupar-se dos cavalos, e só uma vez se virou para mim. «Suba», disse depois. Efetivamente, estava tudo pronto. Uma bela parelha de cavalos observei como nenhuma até à data me transportara. E subi, satisfeito. «Mas vou eu a conduzir; você não sabe o caminho», disse ao moço. «Com certeza», respondeu. «De qualquer maneira, eu não vou, fico aqui com a Rosa.» «Não», estremeceu a rapariga, precipitando-se para dentro de casa, com o justificado pressentimento de não poder escapar ao destino.

Ouvi o chocalhar da corrente da porta quando ela a colocou e, a seguir, o som da chave a rodar na fechadura. Verifiquei também que apagava as luzes do vestíbulo e depois as de todos os quartos por que ia passando, para que ele não pudesse descobri-la. «Você vem comigo», disse eu ao moço, «senão, não vou, por muito urgente que a minha viagem seja. Não faço tenção de pagar-lhe o favor atirando-lhe a rapariga para os braços.» «Arre!», gritou o moço, ao mesmo tempo que batia as palmas.

O cabriolé saltou para a frente como um tronco de madeira num turbilhão de água. Ouvi ainda a porta da minha casa a estilhaçar-se perante a arremetida do moço; depois, a tempestade não me deixou ver nem ouvir mais nada, abafando-me todos os sentidos. Mas isto não durou mais do que um momento, pois, como se a quinta do meu doente começasse mesmo à saída do portão do meu pátio, estava já a chegar. Os cavalos tinham-se imobilizado calmamente; o nevoeiro tinha parado e o luar brilhava em redor.

Os pais do meu doente correram para fora de casa, seguidos pela irmã. Fui quase literalmente erguido do cabriolé, não conseguindo perceber uma palavra das suas confusas exclamações. No quarto do doente, o ar era quase irrespirável, devido ao fumo da lareira esquecida. Quis abrir uma janela, mas primeiro tinha de ver o paciente. Magro, sem febre, nem frio nem quente e de olhar vago, com o tronco nu, o jovem ergueu-se na cama de penas, atirou-me os braços ao pescoço e sussurro-me ao ouvido: «Deixe-me morrer, Sr. Doutor.» Relanceei a vista pelo quarto: ninguém o ouvira. Os pais estavam inclinados para a frente, aguardando em silêncio o meu veredicto; a irmã tinha ido buscar uma cadeira para a minha mala dos instrumentos. Abri-a e remexi, à procura do que precisava.

O rapaz continuava a agarrar-me, para me recordar a sua súplica; peguei numa pinça, examinei-a sob a luz da lanterna e pousei-a de novo. «Pois é», pensei, de modo blasfemo, «em casos destes, os deuses ajudam imenso: mandam o cavalo que falta, juntam-lhe outro por causa da urgência e, ainda por cima, até fornecem palafreneiro...» E só nessa altura me lembrei outra vez de Rosa: que poderia eu fazer, como poderia salvá-la, como poderia libertá-la de sob aquele moço a dez milhas de distância, com uma parelha de cavalos que não conseguia controlar? Nesta altura os cavalos tinham conseguido folgar os arreios e abrir a janela pela parte de fora, não faço idéia como; um e outro tinham a cabeça enfiada pela janela e, nada perturbados pelos gritos da família, observavam o paciente. «O melhor é voltar já para casa», pensei, como se os cavalos estivessem a mandar-me retomar viagem. No entanto, deixei a irmã do doente, convencida de que eu estava aturdido com o calor, tirar-me o casaco de peles. Foram arranjar-me um copo de rum e o velho começou a dar-me palmadas nas costas, com uma familiaridade justificada por esta oferta do seu tesouro. Abanei a cabeça; para os estreitos limites da compreensão do velho, eu devia estar indisposto: só assim se justificava a recusa da bebida. A mãe estava junto ao leito do doente, persuadindo-me a assisti-lo. Cedi e, enquanto um dos cavalos relinchava fortemente ao céu, encostei a cabeça ao peito do rapaz, que estremeceu sob a minha barba molhada. Confirmei o que sabia já: o rapaz estava fino; tinha qualquer coisa anormal na circulação, saturada de café pela solícita mãe, mas estava fino e o melhor que havia a fazer era pô-lo da cama para fora. 

Não sou eu, porém, que vou reformar o mundo e, portanto, deixei-o mentir. Era o único médico do distrito e cumpria a minha função até ao máximo, quase até aos limites do possível. Apesar de mal pago, era generoso e ajudava os pobres. Ainda tinha de ir ver se Rosa estava bem, e o rapaz que levasse a sua avante, pois a mim também me apetecia morrer. Que fazia eu ali naquele interminável Inverno? O meu cavalo tinha morrido e ninguém na aldeia me emprestaria outro. Teria de tirar a minha parelha do curral dos porcos; se não tivesse calhado serem cavalos, teria de deslocar-me puxado por porcos. Era assim mesmo. E acenei afirmativamente com a cabeça para a família do doente. Eles nada sabiam do sucedido e, se soubessem, não acreditavam. 

Passar receitas é fácil, mas fazer as pessoas compreender as coisas é difícil. Bem, era a altura de terminar a minha visita. Mais uma vez tinha sido chamado sem necessidade, coisa a que já estava habituado, pois todo o distrito me fazia à vida num inferno com chamadas noturnas. Porém, sacrificar desta vez também Rosa, a linda rapariga que estava lá em casa há anos e em que eu mal reparava, era pedir de mais. Fosse como fosse, tinha de fazer todos os esforços por imaginar maneira de não me irritar com aquela família, que, por muito boa vontade que tivesse, não podia devolver-me Rosa. Todavia, ao fechar a mala e estender o braço para o casaco de peles, vi os familiares do doente todos juntos, de pé: o pai fungava, com o copo de rum na mão; a mãe, aparentemente desapontada comigo - porquê? Que esperarão as pessoas? -, a morder os lábios, com lágrimas nos olhos; quanto à irmã, agitava uma toalha encharcada de sangue. Perante tal cenário, fiquei um tanto inclinado a acreditar que o rapaz talvez estivesse mesmo doente. Ao dirigir-me para ele, acolheu-me com um sorriso, como se eu lhe levasse o mais alimentício dos caldos de dieta (ah, agora ambos os cavalos relinchavam em coro. Creio que o barulho era uma dádiva do Céu para me auxiliar no exame do doente); desta vez, verifiquei que estava realmente enfermo. Do lado direito, junto à anca, tinha uma ferida aberta do tamanho da palma da mão. Cor-de-rosa, de tonalidades várias, escura no interior e mais clara nos bordos, ligeiramente granulada, parecia uma mina a céu aberto exposta à luz do dia, vista à distância. Observada de mais perto, contudo, revelava outro distúrbio. Não consegui evitar um assobio de surpresa. Do estreito interior da ferida coleavam em direção à luz uns vermes da grossura e comprimento do meu dedo mínimo, igualmente cor-de-rosa e manchados de sangue, de cabeças pequeninas e muitas pernas minúsculas. Pobre rapaz, já ninguém podia fazer nada por ti. Descobrira já a tua grande ferida; esse botão de rosa no flanco estava a destruir-te. A família estava satisfeita, pois agora via-me ocupado. A irmã disse à mãe, a mãe ao pai, o pai a várias visitas que chegavam, atravessando o luar na porta aberta, caminhando nos bicos dos pés, mantendo o equilíbrio com os braços esticados. «Salve-me, sim?», sussurrou o rapaz com um soluço, que a vida da própria ferida quase abafou. A gente do meu distrito é assim. Esperam sempre impossíveis do médico. Abandonaram as antigas crenças: o padre vai para casa e livre-se das vestes, uma a uma; o médico, esse, consideram-no onipotente, com a sua misericordiosa mão de cirurgião. Bem, seja como quiserem. Não os obriguei a utilizarem os meus serviços; se me empregarem incorretamente para fins sagrados, deixarei que isso me aconteça também, como se não me bastasse ser um velho médico de aldeia, despojado da criada! E assim se aproximaram a família e os velhos da aldeia, e me tiraram as roupas. Um coro de crianças da escola, com o professor à frente, postou-se diante da casa e cantou estes versos, com uma música extremamente simples: Tirem-lhe a roupa, que ele já nos trata, Se não nos cura, aqui mesmo se mata! 

Só um médico, só um médico.

Depois fiquei despido e olhei calmamente para as pessoas, com os dedos na barba e a cabeça inclinada para um lado. Estava inteiramente senhor de mim e à altura da situação, e assim me mantive, apesar de não ter salvação, pois nessa altura pegaram-me pelos pés e pela cabeça e carregaram comigo até à cama. Pousaram-me nela, junto à parede, do lado da ferida. Depois saíram todos do quarto e fecharam a porta. 

Pararam de cantar.

A Lua ficou oculta por nuvens. Sentia o calor da cama à volta do corpo. As cabeças dos cavalos, nas janelas abertas, ondulavam como sombras. «Sabe», disse uma voz ao meu ouvido, «o senhor inspira-me muito pouca confiança. No fim de contas, o senhor foi atirado pelos ares para aqui, não veio pelo seu próprio pé. E, em vez de me dar assistência, vem roubar-me espaço no meu leito de morte. A minha vontade é arrancar-lhe os olhos.» «Tem razão», respondi, «não está certo. E, no entanto, eu sou médico. Que posso fazer? Acredite que a minha situação também não é fácil.» «Acha que eu me satisfaço com essa explicação? Ah, tenho de me satisfazer, não tenho outro remédio. Sou sempre obrigado a suportar tudo. 

A única coisa que eu trouxe ao mundo foi uma bela ferida; foi esse o meu único legado.» «Meu jovem amigo», respondi, «o seu erro é não ter uma visão suficientemente larga. Eu já estive em todos os quartos de doentes, por todo o lado, e digo-lhe uma coisa: a sua ferida não é assim tão grave. Feita numa esquina apertada com dois golpes de machado. Muita gente dá o flanco e mal consegue ouvir o machado na floresta, e muito menos que ele se aproxima.» «Isso é verdade ou está a aproveitar-se da minha febre para me enganar?» «É mesmo verdade, aceite a palavra de honra de um médico oficial.» E ele aceitou-a e sossegou. Mas agora eu tinha era de pensar em fugir dali. Os cavalos mantinham-se ainda fielmente no mesmo sítio. 

Recolhi rapidamente as roupas, o casaco de peles e a mala. Não queria perder muito tempo a vestir-me; se os cavalos corressem de volta a casa como tinham vindo, seria, por assim dizer, saltar daquela cama para a minha. Obediente, um dos cavalos recuou, afastando-se da janela; atirei com a trouxa das roupas para o cabriolé e o casaco de peles falhou o alvo, ficando preso apenas por uma manga num gancho. Já não era mau. Saltei para o cavalo. Com as rédeas soltas, a arrastarem pelo chão e os cavalos mal apertados um ao outro, o cabriolé ia atrás, a oscilar, rebocando o meu casaco de peles de rojo pela neve. «Arre», gritei; mas os cavalos não se lançaram a galope: lentamente, como um trio de velhos, arrastamo-nos pelos ermos cobertos de neve. Durante muito tempo, ficou a ecoar atrás de nós a nova canção das crianças, esta falsa:

Alegrai-vos, doentes de todo o lado, O médico está junto a vós, deitado!

Por este andar, nunca chegarei a casa. Posso dizer adeus à minha florescente clínica. O meu sucessor está a roubar-me, mas em vão, pois não pode tomar o meu lugar. Lá em casa, o moço repugnante há de estar furioso. E Rosa será a vítima. Não quero pensar mais nisso. Nu, exposto aos rigores da mais triste das estações do ano, com um veículo deste mundo e cavalos sobrenaturais, com a minha muita idade, vagueio perdido. O casaco de peles está pendurado na retaguarda do cabriolé, mas não consigo lá chegar e não há um só do meu rebanho de ágeis doentes que levante um dedo. Traído! Traído! Depois de ter acorrido a um falso alarme noturno, já não há remédio. 

Nunca mais.


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PS: Foi feita uma premiada animação baseada neste conto do Kafka. VEJA AQUI.
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